quinta-feira, 2 de julho de 2026

Médium de gente

 



O conceito de mediunidade está ligado à sensibilidade para sentir, ouvir ou até ver espíritos. Confesso que fico entre admiração e incredulidade. E olhe que acho que até já senti "presenças" espirituais, ou imaginei ter sentido. Mas não, não consegui ouvi-las. 

Isso posto, é para falar que me peguei acreditando numa adaptação desse conceito. E como então seria a palavra para designar quem sente gente de verdade? É. Com esse dom eu nasci. Ou aprendi. O que é bem mais provável. E por mais útil que possa parecer essa aptidão, digo-vos que não tenho certeza se gosto de possuí-la. 

Sou médium de gente. Percebo a energia de olhares, gestos sutis, movimentações corporais, respirações. E nem vou falar do que leio em caso de escutas de falas, leitura de escritos ou toques. E isso nem é nada demais, já que os bichinhos que as vezes nos rodeiam, gatos, cães, pássaros, com um cérebro bem menor que o nosso, também o fazem.

Sentir pessoas é um poder que pode nos alertar, nos instruir, proteger, nos defender. Não precisamos de linguagem falada. Qum tem esse dom deve se colocar à serviço da paz e do amor no mundo. E não ceder à tentação da angústia com as verdades percebidas. Seria importante que psicólogos e educadores tivessem essa habilidade. Mas isso é coisa que não se escolhe.

E tem o lado complicado também, para usar uma palavra leve. Porque muitas e muitas vezes seria bem mais saudável para a minha alma simplesmente não ter tais "informações". O inocente, que desconhece energias, pensamentos e sentimentos ocultos, por vezes é bem mais feliz.

Trata-se enfim de guardar meus dons na minha maleta de mão e fazer uso consciente dessa sensibilidade. Posso ajudar pessoas, mas sem declarar isso, no entanto. O velho "onde houver ódio que eu levo o amor, onde houver ofenças que eu leve o perdão", do maior medium de gente de todos os tempos, São Francisco de Assis. Posso também me ajudar, vestir minha casca de beskar e atravessar silenciosamente, como deve ser. 

Também pode acontecer dessa percepção se equivocar, por vezes. Isso é possível. Como uma tv antiga quando não sintonizava direito. Então, não dá para confiar totalmente em todas essas impressões. Não é ciência, é uma percepção humana. E humanos não passam de poeira interestelar. É bobo quem se dá muita importância.

 E acredito que sentir energias pode também acontecer com um treino, uma busca por mais percepção. E para concluir essa reflexão digo que seria bom se os humanos buscassem mais ler pessoas do que espíritos. Se todos lêssemos pessoas haveria mais paz. E não existiriam guerras. E cada um com suas utopias. Fico com as minhas despretensiosamente, como quem se diverte com uma pequena bacia de pitangas.